Aprendi, não há muito tempo, com Marie Balmary*, que uma tradução estranha aos nossos ouvidos, poderia ser, efectivamente, a melhor interpretação (literal) do grego do “Pai nosso”. Soar-nos-ia assim: “Pai de nós”.
É que no texto original, quer em Mateus (6,9-13), quer em Lucas (11,2-4), não existem possessivos; nada está escrito no genitivo.
Aliás, à expressão “Pai de nós”, segue-se, logo a seguir, “o nome de ti” ou, mais à frente, “o pão de nós”…
No Evangelho de Lucas, logo o pedido dos discípulos era formulado com um “nós”: «Ensina-nos a orar» (Lc 11,1).
Se calhar, a nossa aventura neste mundo, como filhas e filhos deste Pai-de-nós é mesmo construirmos essa dimensão divina – a do “nós” – sobre a Terra. Sem possessivos. Como comunhão vivida em relações reconciliadas e reconciliadoras. Capazes de dar vida, de fazer viver. Capazes de re-inventar a Paz sem excluir ninguém.
A Paz, essa solicitude pela vida do outro que nos torna incansáveis na construção do “nós” da fraternidade.
P. José Manuel
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* Cf. M. BALMARY, Ce lieu en nous que nous ne connaissons pas, Paris 2024, Éditions Albin Michel, 62-74.
imagem: Oração do Pai nosso escrita em aramaico, a língua materna de Jesus.









