Num contexto tão carregado de memória como é [a Cartuxa de Bolonha], [Danilo] Bucchi introduz algo que não se estabiliza. O seu Cristo constrói-se através de um traço essencial, feito de linhas que sugerem mais do que descrevem. Não encena um episódio evangélico, não insiste na narrativa da dor, não impõe uma leitura unívoca.
A imagem evita uma construção narrativa tradicional e apresenta-se como um limiar: reconhecível, mas nunca totalmente definido. Uma forma que se deixa ver sem se fechar.
O processo é por acumulação. De perto, o Cristo dissolve-se: emergem fragmentos, presenças isoladas, figuras que afloram e se dispersam – entre elas, uma mulher que chora lágrimas vermelhas. Só recuando é que a imagem se recompõe: o Cristo aparece e, no seu lado, distingue-se a Virgem Maria […].
Não é uma imagem dada de uma vez por todas. Acontece no olhar, na distância, no movimento de quem observa. Nesta oscilação entre aparição e desaparecimento, a obra aproxima-se de uma dimensão do sagrado instável, aberta, profundamente pessoal.
O título, «de todos», não é uma fórmula, mas uma consequência. Nasce daquele gesto originário, público e partilhado. Uma imagem que, desde o início, não pertence a um único, mas permanece disponível, atravessável, exposta ao olhar de quem quer que passe, crente ou não.
«De todos» porque há um momento em que cada um, diante do limite, se volta para o que não conhece. Todos esperamos num milagre.
Excerto de NaCapa do caderno Mulher Igreja Mundo do Osservatore Romano, 2 de maio de 2026









