A palavra fonte é das mais antigas da nossa língua. Veio do latim fons, fontis, e antes disso de uma raiz indo-europeia que significava simplesmente “brotar”. Está em toda a Bíblia, está nas nossas aldeias, vilas e cidades. É um sítio onde a água nasce, e onde, por isso, a vida acontece.
E talvez seja disso mesmo que precisamos neste Verão. Porque há uma secura que não é apenas do tempo. A guerra que não pára. O ruído que não se silencia. A pressa que nos rouba os dias antes de os vivermos. Julho e Agosto chegam, e com eles um convite: não é só descansar, é o saber procurar uma fonte.
Atrevo-me a chamar-lhe descanso compassivo. Não o descanso como quem foge do mundo, mas o que nos devolve a ele com o coração mais largo. Foi o convite que Jesus fez aos seus, quando os mandou repousar. Descansa-se para se poder amar melhor e assim avançar.
A nossa Comunidade é particularmente abençoada este mês, pois começamos este tempo em boa companhia. A 4 de Julho celebramos a nossa Padroeira, a Rainha Santa. A 25, dia de São Tiago, lembramos a peregrinação que um dia a levou a Compostela; já viúva, sem coroa, a caminhar com os pobres. Santa Isabel foi, em vida, uma fonte. Fez a paz entre o pai e o filho, semeando o futuro. Cuidou dos doentes. Abriu portas onde outros levantavam muros.
O Papa Leão diz-nos algo parecido na sua encíclica Magnifica Humanitas: a humanidade só é magnífica quando se inclina, como o Bom Samaritano, para curar as feridas do irmão. E acaba de o mostrar em Espanha, sob o lema “Alzada la mirada” – peregrinando a Montserrat e descendo até aos migrantes das Canárias. Santa Isabel foi precursora deste Evangelho vivido.
Que estas férias sejam um caminho até à fonte. Uma fonte de paz, primeiro connosco. De proximidade, desligando as telas para nos religarmos a quem amamos. De verdadeiro encontro – esse que só acontece quando temos o olhar erguido e reconhecemos o irmão ao nosso lado.
Não será certamente preciso ir a Santiago. Basta parar com intenção. E deixar que o Verão nos torne um pouco mais humanos.
Boas férias. Bom descanso.
P. João Marçalo









