Permitam-me, para concluir, contar a primeira vez que vi Lisboa. Foi há cinquenta anos atrás, em mil novecentos e setenta e cinco, na ponte aérea dos retornados. Vinha com a minha família do Lobito a caminho da Madeira. Tinha então nove anos de idade. Vi, pela primeira vez, Lisboa a partir do céu, a tantos mil pés de altitude, da janela do avião. A extensão da cidade maravilhava-me. A velocidade do avião não cancelava a lentidão, antes a reverberava como se uma valsa dentro de mim imprevistamente irrompesse. Mas eu tremia — recordo-o com absoluta nitidez — como treme um passarinho que ainda não sabe o que se abre diante de si. O que se sobrepunha a tudo, naquele momento, no peito daquele miúdo, era a incerteza, dividido entre o que se inaugurava ao seu olhar e a ferida do que deixava.
Por isso, Senhor Presidente, agradecendo-lhe a Si, e na Sua pessoa a quantos deliberaram a atribuição desta medalha de honra, confio-Lhe que a sinto colocada não no peito deste homem de sessenta anos que tendes diante de vós, mas naquele outro, longínquo, no peito da criança que, ao ter visto Lisboa pela primeira vez, a tantos mil pés de altitude, temia não encontrar chão para construir uma vida e uma beleza que perdurem.
E, o meu desejo mais ardente é que, estando colocada no peito de quem fui aos nove anos de idade, não esteja apenas aí, mas que esta honra de ser cidade toque a todos os que chegam e chegarão pela primeira vez a Lisboa, e dramaticamente se perguntam se este é um lugar onde os sonhos persistem e um estaleiro possível para os seus milhões de nascimentos.
José Tolentino Mendonça
Conclusão do discurso do Card. Tolentino na Câmara Municipal de Lisboa em 17 de Setembro passado, aquando da atribuição da Medalha de Honra de Lisboa.
imagem: Emblema da Cidade de Lisboa. Fotografia da capa da obra de Margarida Ambrósio Pessoa Fragoso, Livros Horizonte.









