texto do mês

Jesus, Maria e José

by | Dez 1, 2024 | Texto do Mês

Quem estudou teologia bíblica desde a segunda metade do século passado, habituou-se a considerar o episódio dos Magos e da fuga para o Egipto como um midrash.*
Esta narração surge em espelho com o Êxodo, tendo como fundo a morte dos meninos hebreus por ordem do faraó. Jesus é, assim, apresentado como o novo Moisés, salvo que foi da matança dos Inocentes ordenada por Herodes.
Mas os Coptas, os cristãos do Egipto, são relativamente insensíveis a esta perspectiva hermenêutica. A comemoração da chegada ao Egipto de Maria, José e do Menino Jesus, acompanhados por Salomé, prima de Maria, corresponde a uma festa primordial; para eles é um elemento fundador. Acontece que estas narrativas acerca da infância de Jesus são veneradas também pelos muçulmanos.
«Deus distinguiu-nos e deu-nos uma bênção para que este acontecimento tenha tido lugar na nossa terra», declarou, em 2021, o Patriarca Copta-Ortodoxo Tawadros II. A permanência de Jesus menino no Egipto faz com que este país possa ser também uma “terra santa”. Os lugares que a tradição aponta como sítios em que a Sagrada Família permaneceu são hoje destinos de peregrinação de centenas de milhares de pessoas: grutas, poços, monumentos, igrejas, algumas do séc. V, outras mais recentes.
A última etapa deste caminho encontra-se no monte Qusqam, a mais de trezentos quilómetros a sul do Cairo. O mosteiro de Muharraq está construído sobre a casa onde terá permanecido a Sagrada Família. A ser assim, foi lá que José, avisado em sonhos da morte de Herodes, fez embarcar a sua família para descer o Nilo e retomar a caminhada de regresso à Galileia.
E se Jesus, Maria e José experimentaram o sofrimento de quem teve de fugir, podemos pedir-lhes a graça do amparo para todos aqueles que fogem por causa da guerra, do ódio e da fome; ajuda nas dificuldades, força para o caminho de esperança, e acolhimento e solidariedade no destino.

P. José Manuel

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* O midrash é um dos métodos típicos da leitura bíblica para os hebreus. Numa visão cíclica da história, a presença de Deus na história é continuamente actualizada, oferecendo sempre novos significados às várias situações da vida. O passado é fundamental para entender o presente e intuir o futuro. Tal hermenêutica forneceu aos autores cristãos a base para apresentar a figura de Jesus como realização das promessas do Antigo Testamento.

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